ESSA MATÉRIA RETRATA DE FORMA FIDEDIGNA O SENTIMENTO DE TODOS AQUELES QUE UM DIA VIVERAM OS TEMPOS MÁGICOS DA TV, EM TODA A SUA PLENITUDE, INGENUIDADE E FANTASIA.
César A. Garcês
UMA VIDA DEDICADA A PERDIDOS NO ESPAÇO
Por Elias de Lucena – fã nº 1 da série, segundo os próprios atores
Faço parte da geração que assiste à série Perdidos no Espaço desde sua primeira apresentação no Brasil, em São Paulo, através da TV Record – canal 7. No dia 4 de dezembro de 1966, Perdidos no Espaço estreou com exibições semanais às 18h30 dos domingos. Em pleno horário nobre, a série era precedida pelo programa “Jovem Guarda”, que lançou astros como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderleia. Logo após “Perdidos”, entrava no ar o programa “Hebe”, que também teve sua estreia naquele ano. Os episódios inéditos de Perdidos no Espaço apresentados aos domingos, tinham reprises às quartas-feiras, 15h.
A TV Record era a emissora mais vista nos anos 1960 e seu horário de maior audiência era exatamente dessa trinca Jovem Guarda/Perdidos no Espaço/Hebe. Eu tinha então 6 anos de idade.
A tecnologia de exibição das séries era muito primitiva nos anos 1960. As imagens eram desfocadas e o som encubado e baixo. O filme emperrava ou simplesmente não entrava no ar. Sempre que aconteciam esses problemas técnicos durante as exibições de Perdidos no Espaço na Record, era exibido um slide do tigre-símbolo da emissora. O animalzinho segurava um chapéu e apontava para os dizeres “Perdidos no Espaço” ao alto da tela. Havia também um desenho da nave Júpiter 2 e uma música espacial de fundo, que fora utilizada por muitos anos pelo Planetário da cidade de São Paulo.
Lembro-me da primeira impressão que tive ao ver a série: pânico ao ver o robô e o sinistro Dr. Smith, logo no primeiro episódio.
A partir de 1970, Perdidos no Espaço passou a ser apresentado pela TV Globo. Os episódios eram exibidos diariamente e lembro-me bem dos cortes na parada de cena para o episódio seguinte, quando o narrador dizia: “Não percam na próxima semana…”. Como as exibições eram diárias na Globo, essa narração era então cortada.
Em 1971, ganhei de meu pai um gravador de som com fita cassete. Passei a colocar o microfone perto do auto-falante da tevê para gravar o áudio dos episódios. Talvez nesta ocasião que tenha nascido em mim a consciência da importância da dublagem original. Lá por volta de 1974, os episódios em preto e branco do primeiro ano de produção foram desaparecendo da programação. O número de tevê em cores crescia e assim, já não assistíamos mais às reprises do início da aventura dos Robinson.
Em 1976, Perdidos no Espaço estava sendo exibido na TV Globo às 9 da manhã, logo após O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Até hoje, o tema do “Sítio” — cantado por Gilberto Gil — me faz recordar da expectativa para o início das apresentações matutinas de Perdidos no Espaço.
Em 1977, conheci outro árduo fã de Perdidos no Espaço, chamado Ricardo Domeneghetti. A partir daí, passamos a curtir juntos as aventuras da família Robinson.
No ano seguinte, Perdidos no Espaço havia mudado para a Rede Tupi, que, durante as tardes, exibia apenas os episódios coloridos. Até que Ricardo e eu fomos então ter o primeiro encontro físico com a série, no escritório do bairro paulistano da Água Branca, na sede da distribuidora de filmes e séries dos estúdios Fox. O diretor Abel Puig nos levou para um tour. Foi emocionante passearmos pelos corredores da Fox, bem próximos das latas das películas em 16 milímetros, dispostas pelas prateleiras. Num corredor ficavam os episódios de Perdidos no Espaço e Batman; no outro, Júlia, Nós e o Fantasma.
Já no escritório, Abel abriu uma lata com rolos de filme de Perdidos no Espaço. Inexplicável a emoção de segurar a série mais importante do acervo! Jamais me esquecerei que ao puxar o filme, pude ver as imagens estáticas do rolo em 16 milímetros! Abel dizia que Perdidos no Espaço era o “arroz com feijão” da empresa, uma “necessidade diária, que não podia faltar na tevê do brasileiro”.
Assim, Ricardo e eu fizemos uma campanha com amigos, por cartas e por telefone, para a Rede Tupi exibir os episódios em branco e preto, ainda banidos do ar devido a vinda das cores na tevê. Deu certo! A Rede Tupi, já na fase final de sua vida, exibiu o primeiro episódio de Perdidos no Espaço. O narrador da emissora disse: “Veja como tudo começou…”. Essa exibição fez tanto sucesso que a rede decidiu apresentar todos os episódios do primeiro ano. Digo, apresentar o que foi possível, pois as cópias já estavam em estado debilitado por terem sido muito utilizadas pela TV Globo, no inicio daquela década.
No início dos anos 1980, Perdidos no Espaço foi exibido pela Rede Bandeirantes. Mais uma vez, só eram exibidos os episódios coloridos. Chegamos até a tentar convencê-los de exibir os episódios iniciais, mas não obtivemos sucesso.
Teríamos sucesso novamente em 1988, quando a programação da TV Gazeta de São Paulo estava sendo administrada por jovens. Entre eles, Marcelo Machado (vindo da produtora independente Olhar Eletrônico). A emissora paulistana havia adquirido direitos de exibir apenas a segunda e terceira temporadas. E novamente lá estávamos para conversar com a direção a fim de tentar alterar os planos e exibir a série desde seu início. Junto com outra campanha de cartas e telefonemas, a Gazeta alterou o contrato para exibir do primeiro ao 54º episódio.
Era janeiro de 1988 quando falei ao fone pela primeira vez com o dublador do Dr. Smith, o ator Borges de Barros. A inconfundível voz brasileira do Dr. Smith estava falando comigo! Estávamos fazendo o convite para o programa que antecedia a estréia de Perdidos no Espaço na TV Gazeta, o “Paulista 900″, apresentado pela jornalista Paula Dip. Oito da noite e o programa entrou no ar ao vivo. Além de Borges de Barros, estavam Helena Samara (voz de Maureen Robinson) e Maria Inês (a segunda voz de Will Robinson). Os dubladores e nós ficamos conversando e preparando o público para o início da exibição da série em preto e branco, que já estava muito anos ausente do vídeo, desde a Rede Tupi. Foi um sucesso! A emissora exibiu a série até a metade do ano seguinte, 1989.
Em todos esses anos, os contatos com amigos, jornalistas e apreciadores de Perdidos no Espaço iam acontecendo. Com exibição da série pela TV Gazeta, esses contatos cresceram ainda mais. Fazíamos reuniões pra curtir Perdidos no Espaço e outras séries clássicas, além de trocar recortes de revistas e jornais, nacionais e estrangeiras. A revista StarLog era um “must”, sempre com matérias especiais sobre nossa série favorita.
Em 1990, o jornalista Roberto Rios atendeu aos nossos pedidos e fez a reestreia de Perdidos no Espaço na Rede Record. Era a “Manhã de Aventura” com Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo do Mar e O Túnel do Tempo. A reestreia foi com o episódio “Os Condenados”, da terceira temporada, para ser quase uma continuidade de onde a TV Gazeta havia encerrado a exibição.
Em 1993, a TV por assinatura dá seus primeiros passos no Brasil e chega o canal da Fox. Perdidos no Espaço e as demais séries do produtor Irwin Allen estavam novamente no ar, em cores maravilhosas em imagens restauradas para vídeo e com as preciosas dublagens originais! Que felicidade ao ver transpor essa barreira tecnológica. A Fox magistralmente preservou a dublagem e a colocou nas imagens melhor definidas. Um banho para os olhos, para os ouvidos e para a alma!
O primeiro Encontro com os Atores
Em 1998, ano do filme “Perdidos no Espaço”, recebi por correspondência uma propaganda americana, com telefones de uma convenção em Los Angeles (EUA). Lá estariam Angela Cartwright (Penny Robinson), Bob May (o robô), Vitina Marcus (a alienígena flutuante Athena), além de alguns astros das outras séries de Irwin Allen.
Acabei indo para lá. Imaginem a minha emoção ao ver Angela Cartwright ao vivo, se preparando para colocar suas fotos sobre a mesa! Foi um fim de semana de sonhos. Conhecer atores históricos para tevê mundial, conheci também fãs americanos que ainda virariam amigos e, em alguns anos mais tarde, me trariam o maior presente que um fã brasileiro de Perdidos no Espaço poderia receber.
O Segundo Encontro: a Homenagem
Em 2001, recebo em casa fotos que mudariam para sempre a minha vida. Alguns desses meus amigos americanos, junto aos astros Mark Goddard (Major Don West), Bill Mumy (Will Robinson) e Bob May, todos segurando uma cartolina branca com os dizeres: “Hi, Oi Elias”. Era um convite para que eu fosse a uma nova convenção americana, onde todos os astros de Perdidos no Espaço estariam.
Não pude deixar de ir! Na convenção, as filas maiores para tirar fotos e colher autógrafos eram para Jonathan Harris (Dr. Smith). Avaliem a minha emoção ao estar diante daquele homem que personifica a série! Através dos meus amigos, fui apresentado ao elenco durante a convenção. Uma vida dedicada a Perdidos no Espaço e eu estava lá com eles, a família Robinson, Don West e o Dr. Smith! Algumas vezes, carinhosamente, Jonathan me chamava de “meu neto” doce e gentil. Já octogenário, aquele renomado ator e insuperável intérprete que faz parte da história da tevê mundial falava comigo! As emoções se tornam então indescritíveis por palavras…
À noite tivemos um jantar para 70 pessoas, com todo o elenco de Perdidos no Espaço. Os artistas iam conversando com as pessoas, se revezando nas mesas, até que Mark Goddard pede a atenção de todos e diz: “Eu quero que venha até aqui aquele de vocês que souber dizer ‘Lost in Space’ em português!”
Como único fluente em língua portuguesa do local, levantei a mão e disse a palavra mágica: “Perdidos no Espaço”. Recebi um troféu das mãos de Mark Goddard, autografado por todos os astros da série, com um número “1″ bem grande e os dizeres: “To The Lost in Space fan of the Century – Elias de Lucena” e a tradução: “Ao Perdido de Espaço, o devoto do século – Elias de Lucena”.
Impossível colocar em palavras os sentimentos. A partir dai, a emoção, a gratidão pelo afeto recebido deles, os astros de Perdidos no Espaço, o meu rosto nas fotos ao lado de cada astro diz tudo!
Uma vida dedicada ao meu sonho de infância que proporcionou amigos pelo Brasil e pelo mundo! Perdidos no Espaço, a série que amo!
Na verdade, já estava tudo armado por meus amigos e astros da série para me entregar esse prêmio. Esses amigos que fiz na viagem de 1998 conhecem os astros da série há muito tempo e frequentam as convenções pelos Estados Unidos.
Certo dia, eles explicaram aos astros de Perdidos no Espaço que sou um “fã-loster” fanático pela série e citado em vários jornais, revistas, tevê e internet do Brasil. Disseram também que sempre lutei junto com os amigos para que a série fosse ao ar e estivesse sempre sendo lembrada através dos contatos com jornalistas, principalmente.
Isso fez com que os atores me oferecessem esse lindo e inesquecível presente!
Elias de Lucena (agosto/2004)
O elenco da série antes e depois
Canto superior esquerdo o troféu que Elias recebeu nos Estados Unidos
Elias posa ao lado do elenco da série
Abaixo a cerimônia de premiação
Fonte: site retrotv


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