cinemanostalgia

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ESPAÇO DA POESIA

A IDEIA



Uma ideia é como uma semente:
Devemos plantá-la, regá-la, e esperar que floresça.
Depois, com o passar do tempo, é necessário que a podemos, para que seus ramos não ultrapassem os limites alheios.
Uma idéia é, portanto, uma vida. Devemos preservá-la sempre.



O CONTEMPLADOR


" Quando ele era criança, a liberdade da inocência lhe permitia ter todos os sonhos
E querer ter tudo e ser tudo na vida.
Quando entrou na adolescência percebeu que a sua bravura e o seu QI não davam pra tanto.
Aí, restringiu-se a querer ser, pelo menos, igual à maioria das pessoas comuns.
Quando atingiu a sua juventude descobriu que os sonhos e o mundo eram bem maiores do que ele supunha.
Então, satisfez-se em ser apenas mais um na multidão.
Quando envelheceu e percebeu que os seus dias chegavam ao fim, sentou-se e vislumbrou toda a magnitude da vida. Então soube, tardiamente, que poderia ter sido tudo o que ele quisesse. Inclusive, ser ele mesmo."



O TEMPO



Tempo, meu amigo tempo
De onde vens , onde moras?
Companheiro do vento e amante das horas
Te conheço só de ver passar
Mas eu sei que avisa e diz que vai chegar
Ah! Implacável tempo
Senhor de mim!
Senhor de nós!
Tempo que passa por mim e me deixa tão só.
Tempo, tempo, tempo
Quisera eu andar contigo
Quisera ser o teu abrigo
E te guardar de mim
De nós enfim
Tempo eu nunca te vi
Mas te sinto como a brisa fria
E sinto em mim toda a tua nostalgia
E te sinto forte feito a vida e feito a morte.
Senhor de mim!
Senhor de nós!
Tempo que passa por mim e me deixa tão só


TUDO É TRISTE NA TERRA DO SOL



Tudo é terra sol e fome
Pedra e suor que a carne consome
Tudo é fardo na terra tão dura
É o calo latente da miséria sem cura
Tudo é dor choro e sofrimento
É a raça perdida no tempo
É o filho que morre ao relento
É o pai que padece por dentro
E o homem devora o filho do homem
E o homem castiga o homem na fome
E o homem não vê o homem que chora
E o homem não ouve aquele que implora
Tudo é sangue pulsando nas veias
É a esperança diluida em areias
Tudo é seco num leito de pedras
É a própria sorte jogada às trevas
Tudo é triste na terra do sol
É a sina escrita em suor
É a dor transformada em pó
É o suspiro da última voz
E o homem devora o filho do homem
E o homem castiga o homem na fome
E o homem não vê o homem que chora
E o homem não ouve aquele que implora

                                   
   SÓS



Ela só pensa nele
E  ele pensa em outra.
Mas  a outra o esqueceu e já está em outra.
Então, ele voltou para aquela.
Mas aquela, desiludida, entregou-se a outro
E ele ficou só pensando naquela, na outra e no outro.
O outro, rapidamente, cansou-se daquela,
E ela, mais uma vez triste, voltou a pensar nele.
Então, ele, decidido, ficou com ela.
E ambos, aquietados, só pensavam nele, nela, na outra e no outro.
E assim, todos eles, pensando, pensando, ficaram só.



    MENINO, VAI  LIGEIRO



Anda menino. Anda depressa que o tempo urge.
Menino anda. Trata de crescer que as horas se apressam e o tempo urge.
Cuida menino, te avexa da vida que ela te espera e o tempo urge.
Vai menino, vai. Que a tua hora chegou, a tua carga te espera, tua estrada é comprida e o tempo urge.
Menino, vai ligeiro, que a fila tá grande, e a fila quer  andar,que o tempo é escasso e urge.
Menino, menino anda. A oferta acabou e agora tudo é demanda e o tempo urge.
Menino, trata de achar o que procura porque já é tarde nas horas e o tempo...
...Ah! O tempo urge.





POESIA CHULA













Que os poetas medíocres e a inanimada lua
Sejam cúmplices dos amores desvalidos;
Que seja o vosso aconchego a escura e deserta rua,
Na madrugada dos insanos e de sentimentos descabidos.
Mas eu — eu não serei testemunha de vossa pieguice,
E nem tampouco compartilharei de tamanha breguice.

Que os artistas miseráveis e loucos terminem sozinhos,
Usufruindo a solidão atroz — porém, merecedora;
Que os rábulas de plantão tomem partido desses versinhos
Tão pífios e de uma agonia inspiradora.
Mas eu — eu não os lerei em sã consciência,
Nem tampouco instigarei minha paciência.

Continuem a ser fazedores de rimas pobres,
Versados numa figura de linguagem assaz extenuante;
Que sejam o achincalhe e o desdém dos pseudos-nobres;
Escrivães de uma mesmice repugnante.
Mas eu — eu não serei discípulo desse fardo poético;
Serei sim — a mão que conduz o lápis eclético
Que sejam desprovidos da ousadia literária
E que morram minguados na sua vã excrescência;
Poesia de botequim chula e precária,
Construída em versos frívolos e sem consistência.
E eu, não serei assassino da mãe língua,
E nem findarei meus dias como eles, à míngua.
Mas o quê que estou dizendo!

Ainda continuo a fazer rimas pobres e versos medíocres.



A PALAVRA



Quase nada resiste ao tempo:
Nem a rocha mais dura; nem a árvore mais robusta;
Nem o ferro; nem o aço; nem a vida...
Quase nada resiste ao tempo:
Nem os príncipes e reis; nem as grandes fortunas; nem o talento; nem a consciência;
Nem os astros; nem a vida...
Quase nada resiste ao tempo:
Nem o pensamento; nem o querer; nem o amor; nem o ódio; nem toda a beleza do mundo;
Nem o ar; nem a vida...
Quase nada resiste ao tempo. Exceto a  P A L A V R A



A MÚSICA DE ONTEM


A música de ontem é a minha doce saudade
É a saudade de mim mesmo
Ela é grande e eterna
Assim como os clássicos o são
Assim é a minha saudade
Como a melodia de ontem
Abafada hoje pelo batuque dos grandes tambores
Assim é a minha saudade
Também abafada pelos tempos presentes
Pelo imediatismo das horas apressadas
Ah! Que saudade de mim



O TRISTE POETA














De repente o poeta se entristeceu porque não mais viu motivos em seus versos: nunca mais vira os pardais brincarem no seu quintal; nunca mais vira um beija-flor bailar ao redor das flores; não ouvira mais o canto de um sabiá. E eis que o poeta se calou...
E então ele chorou porque suas rimas ficaram artificiais e a sua letra desfigurada; as flores são de plástico, e os casais viraram amantes, sem nunca terem sido namorados; a canção virou batuque e, o amor, afinal, transformou-se em dor.
De repente entristeceu o poeta de tanta desventura: o trovador perdeu a voz e, num lapso de ostracismo, cambaleou e perdeu o canto; as madrugadas se tornaram solitárias sem serenata e sem violão, e os corações da noite murcharam e se fecharam.
Do que mais, então, poderia se queixar o poeta? Suas ferramentas de trabalho não existem mais, e além do mais, o seu tempo já é curto; sua tinta secou e o seu caderno findou. Agora, o poeta é só um homem.










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